[:pt]Especial: Zika vírus[:]

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Avanço nas pesquisas de vacinas e medicamentos

No boletim passado, foi comentado que o Instituto Evandro Chagas em parceria com a Universidade do Texas teria a previsão de iniciar os testes em animais na virada do ano. Até onde tudo indica, essa previsão está correta, pois de acordo com ministro Ricardo Barros a pesquisa, que teria prazo inicial de 12 meses, está sendo antecipada para nove meses e dessa forma a vacina para combater o vírus Zika estará disponível para testes pré-clínicos a partir de novembro. Isso foi possível devido ao fato de um investimento nas pesquisas de desenvolvimento para vacina da Zika de aproximadamente R$ 10 milhões, conforme informação divulgada na sexta-feira (20) pelo Ministério.

A vacina deverá ser administrada em dose única e utilizará o vírus Zika atenuado, logo o público-alvo da imunização será de mulheres em idade fértil. A vacina para gestantes deve ser menos reativa, porém ainda segura para manter o feto e a mãe protegidos, por isso necessita de uma tecnologia especial que é a de DNA recombinante do vírus. Em ambos os casos as vacinas devem estar disponíveis em 2017, a primeira para produção em escala comercial e a segunda para realização dos testes clínicos. Estas previsões estão baseadas na possibilidade de aceleração do andamento das fases de testes clínicos, em negociação com a Organização Mundial de Saúde e as agências regulatórias. Durante a epidemia de ebola, para acelerar os estudos em busca de uma vacina, a aceleração foi permitida.

Os Estados Unidos também estão nessa corrida tecnológica para desenvolver uma vacina, e pesquisadores da Universidade do Texas conseguiram clonar o vírus Zika do mesmo sorotipo circulante nas Américas e que ainda mantém o padrão de infecção do vírus original. Esse tipo de clonagem auxilia a produção de vacinas atenuadas, ou seja, com uma versão mais “segura” do vírus da Zika que seja capaz de gerar a infecção sem que a doença seja causada; e também a criação de vacinas de DNA recombinantes, feitas a partir de vírus geneticamente manipulados. Além disso, a clonagem do vírus Zika pode acelerar o desenvolvimento de medicamentos antivirais que sejam capazes de reduzir os efeitos do Zika em quem já foi infectado.

Por falar em medicamento, conforme comentado no boletim anterior, indústrias farmacêuticas estão apostando primeiro no desenvolvimento de medicamentos para as pessoas já afetadas pela epidemia da Zika. Algumas delas já estão investigando a ação anti-zika em alguns antirretrovirais, antimaláricos como a cloroquina e há também fórmula medicamentosa a base de quercetina. Esta última poderia ser usada também para a dengue, chikungunya, zika e outros vírus, inclusive o da gripe H1N1, pois inibe a replicação do vírus nas células e estimula as defesas do organismo. A fórmula está em fase de negociação com três industrias farmacêuticas para a produção em escala industrial.

Há também novidades na área de kits diagnósticos. Foi lançado nesta terça-feira (31) em Salvador pela Fundação Bahiafarma o primeiro teste rápido nacional para vírus da zika, que apresenta resultado em 20 minutos. O exame será fabricado na Bahia para atender a demanda do Ministério da Saúde, com previsão inicial de produção de 500 mil testes por mês. Conforme discutido no boletim anterior, esse teste é diferente dos já utilizados no SUS, uma vez qaue detecta os anticorpos produzidos para a doença (diagnóstico sorológico) e não a presença do vírus em si. O teste rápido foi desenvolvido por meio de parceria entre a Bahiafarma e a empresa sul-coreana Genbody. A pesquisa durou dez meses, e o teste já tem registro da Anvisa, que liberou o uso na segunda-feira (30). É importante lembrar que tanto o diagnóstico sorológico quanto o molecular (por PCR que detecta a presença do vírus) tem sua importância e são de caráter complementar. Não se deve usar o resultado isolado deles para diagnosticar a doença, então para evitar confusão e orientar o uso e diagnóstico correto o  Ministério da Saúde deverá anunciar o seu protocolo para utilização de testes rápidos, de acordo com a Política Nacional de Saúde.

Como a pesquisa colaborativa é o caminho para o desenvolvimento de novas tecnologias em tempo otimizado, a Universidade Federal de Goiás lançou o projeto Open Zika, que fará a triagem virtual para testar a eficácia de substâncias que podem ser utilizadas no tratamento do Zika vírus através de simulações computacionais. Após confrontar os dados obtidos, serão feitos testes em animais em parceria com laboratórios farmacêuticos para realizar testes em humanos. Com a utilização da tecnologia pode-se acelerar o desenvolvimento de um novo medicamento em até 5 anos. A plataforma é aberta ao publico e pode ser acessada em http://openzika.ufg.br.

Considerando  a ideia de auxiliar a comunidade científica, profissionais de saúde, gestores de políticas públicas e a população em geral a entender e a lidar melhor com o surto, a Resource Center Zika Vírus, da Elsevier abriu seu conteúdo pago publicado nas revistas The Lancet e plataformas ScienceDirect, ClinicalKey, Mendeley, Scopus e SciVal e disponibilizará o conteúdo em português e espanhol. A editora é responsável por cerca de 25% de todo o conteúdo científico publicado no mundo, e o custo pelo acesso da literatura científica é uma barreira que atrapalha o avanço das pesquisas. Este tipo de atitude apoia o trabalho da comunidade científica na descoberta de uma vacina, medicamento e até kit diagnóstico.

Em resposta à epidemia da Zika, o Ministério da Saúde criou a Rede Nacional de Especialistas em Zika e doenças correlatas (Renezika). Essa rede vai além da proposta da Elsevier e da UFG, pois  além de gerar um ambiente de compartilhamento científico para criar uma vacina ou medicamento, também foca em prevenção, controle, mobilização social, atenção à saúde e contribuição na formulação e aperfeiçoamento de protocolos do Ministério da Saúde. Além disso, a Rede pretende fortalecer a capacidade de produção de análises epidemiológicas, fomentar o desenvolvimento de estudos multicêntricos sobre o vírus Zika e doenças correlatas e buscar fontes potenciais de financiamento para pesquisas relacionadas ao tema, otimizando a seleção e execução de parcerias.

Essa tendência colaborativa de pesquisa é essencial para combater uma doença de impacto na saúde pública como Zika, anunciada pela OMS como uma emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII). Tal foco deveria ser mantido também para as doenças correlatas como a dengue, que dentre as arboviroses é a mais letal,, e a chikungunya, que é a mais debilitante. Essas colaborações não só aceleram o desenvolvimento de novas tecnologias, como promovem, aproximam e estimulam a pesquisa científica mundial.


Fontes:

Será que vai dar Zika nos jogos olímpicos?

É sabido que o Aedes aegypti é o principal vetor transmissor do vírus Zika e de outras doenças correlacionadas como dengue, chikungunya e febre amarela. Este mosquito possui seu horário de maior atividade no início da manhã e ao entardecer, entretanto, se não conseguir se alimentar ele pode estender esse período, aumentando o risco de picadas. Além do mais, o  contexto ecológico favorece a propagação de arbovírus e a ocorrência de casos graves associados à co-circulação viral. As  condições climáticas e ambientais são adequadas para a atividade e reprodução do vetor; cidades lotadas com intenso fluxo de viajantes torna o Brasil não só vulnerável a grandes surtos, mas também um ponto de dispersão dos casos para o resto do mundo. O mosquito se tornou adaptado ao ambiente urbano e assim possui uma alta capacidade de transmissão de doenças.

De acordo com a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, o fato de um mosquito conseguir espalhar tantas doenças a ponto de causar uma proliferação exacerbada do vírus zika, o ressurgimento crescente da dengue e a ameaça emergente da febre chikungunya são consequências de uma política fracassada de planejamento familiar adotada nos anos 70, levando América Latina e Caribe a apresentarem a maior taxa global de gestações não planejadas, e da negligência no controle de mosquitos.

A fim de compreender essa afirmativa é necessário considerar os sintomas do vírus zika: febre baixa, vermelhidão na pele, coceira, conjuntivite, dor de cabeça e dores nas articulações, além da microcefalia. Foi este último que transformou o perfil do zika de uma doença considerada leve a um diagnóstico devastador para mulheres grávidas e uma ameaça significativa para a saúde global. Dessa forma, de acordo com Chan, o planejamento familiar mal executado somado ao fato do vírus ser transmitido não só pelo mosquito mas também por relação sexual, leva a uma taxa elevada de gestações não planejadas e consequentemente a uma maior taxa de fetos com microcefalia.

Outro motivo dessa epidemia estar ocorrendo é o descaso com a saúde pública. Dados do Levantamento Rápido do Aedes aegypti divulgados pelo governo federal em novembro de 2015 mostram que no Nordeste 82% dos depósitos de larvas de mosquito foram encontrados em reservatórios de água, boa parte deles improvisada para driblar os problemas de abastecimento. Nas regiões Sul (49,2%) e Norte (35,8%) o lixo é o depósito predominante dos mosquitos e, somente no Sudeste, os domicílios correspondem a mais da metade dos focos de reprodução do vetor. Somado a este fato, ao menos 30 milhões de brasileiros permanecem sem acesso a água tratada e mais da metade da população não tem o esgoto coletado. Como disse Édson Carlos, do Instituto Trata Brasil: “A falta de saneamento e água tratada costuma ser associada a verminoses, leptospirose, hepatite e dermatites, mas é inegável que também contribui para proliferação do Aedes”.

Diante desse cenário, a OMS classificou o vírus como uma emergência global de saúde pública e aconselha que as pessoas evitem picadas de mosquito, prorroguem a decisão de engravidar e não viajem para áreas onde há transmissão contínua do vírus. Entretanto, devido ao aumento da epidemia da Zika e de não existir nenhuma vacina confiável ou testes de diagnóstico amplamente disponíveis, para proteger as mulheres em idade fértil, e devido às descobertas recentes sobre o vírus (como a de também estar associado a Síndrome de Guillain-Barré e outros distúrbios), 125 cientistas, médicos e especialistas em ética médica escreveram um documento afirmando que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro deveriam ser transferidos ou adiados. Na carta, eles citam o “fracasso” no programa de erradicação do mosquito no Brasil e o sistema de saúde “fragilizado” do país como razões para o adiamento ou transferência da Olimpíada, marcada para o próximo mês de agosto.

Essa carta não abalou as recomendações da OMS, que ainda se pronunciou dizendo que “cancelar ou mudar o local da Olimpíada de 2016 não irá alterar significativamente a propagação internacional do vírus Zika”. Em resposta os pesquisadores afirmam na carta que pelo fato da  OMS em 2010 ter firmado uma parceria com o Comitê Olímpico Internacional, a organização teria perdido a isenção para avaliar os riscos de saúde pública da Olimpíada.

Querendo acalmar os ânimos, o governo federal complementou a OMS dizendo que o Zika está presente em 60 países e que a população brasileira representa “apenas 15% das pessoas expostas” ao vírus. Além disso, foi destacado que o orçamento para ações de combate ao mosquito e às doenças causadas por ele foi ampliado, e que só no Rio foram contratados 3 mil agentes para a mobilização contra o Aedes, entre outras medidas, como inspeções. A prefeitura do Rio de Janeiro também afirma que a época em que o evento ocorrerá é a época em que há menor prevalência do mosquito, logo diminuindo o risco de propagação do vírus.

O fato é que por mais que muitos avanços estejam ocorrendo em torno do vúrus e o mundo esteja trabalhando unido contra a Zika, a doença encontra-se na fase crescente de infecção. Somado a isso, no Brasil encontramos um cenário em que se insiste em investir na estratégia focada na mobilização popular para evitar acúmulo de água parada, uso de inseticidas e repelentes (mesma estratégia usada por Oswaldo Cruz para conter a febre amarela urbana). Esta prática não se adequa mais à realidade e é indispensável rever as estratégias de combate ao Aedes, levando em conta os problemas estruturais do País. Além do mais, há muito em jogo em termos financeiros e de imagem para o Comitê Olímpico Internacional, para o Brasil, para patrocinadores, então adiar ou cancelar as olimpíadas poderia trazer um prejuízo financeiro enorme.

Conforme citado anteriormente, o “problema do Aedes” é algo mais profundo que envolve não só políticas de planejamento familiar, mas também problemas estruturais como: universalizar o acesso à água tratada, coletar e dar destinação adequada ao lixo, expandir a oferta de saneamento básico. O alcance limitado dessas campanhas de mobilização, somado às olimpíadas, pode resultar sim em um risco grande do Zika se propagar pelo mundo, principalmente em regiões pobres onde a doença ainda não se encontra, o que pode até iniciar um novo surto. As perguntas que ficam no ar são: será que vale a pena a saúde pública mundial correr este risco? Será que o Brasil está preparado?


Fontes:

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