“Medicamentos não são iPhones”, UAEM chega à UFRJ

Se a Apple resolvesse aumentar o preço do iPhone para valores como 90 mil dólares, certamente a imensa maioria dos consumidores do aparelho abriria mão de comprar o iPhone e aceitaria outras marcas. A indústria farmacêutica, por sua vez, é capaz de disponibilizar remédios na prateleira das farmácias por valores iguais ou até maiores do que 90 mil dólares e nós, consumidores, não temos a possibilidade de buscar outras marcas, como no cenário anterior.

“Medicamentos não são iguais a iPhones” foi uma das frases de Bryan Collinsworth, diretor-executivo da UAEM North America, que ecoaram na tarde da última quinta-feira, 15 de maio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre os mais de 40 estudantes que assistiram à conferência “A Crise de Acesso a Medicamentos” promovida pelo capítulo da UAEM na UFRJ.

A inauguração das atividades do capítulo na UFRJ também contou com a palavra lúcida e tocante de Rachel Kiddell-Monroe, ex-presidente da UAEM e membro dos Médicos Sem Fronteiras. Lembrando as incoerências da indústria farmacêutica, Rachel citou o caso do sofosbuvir, um medicamento promissor para o tratamento da hepatite C, uma doença viral que afeta 185 milhões de pessoas no mundo. Apesar do grande interesse para conter a epidemia global de hepatite C, o sofosbuvir, aprovado recentemente nos EUA, foi lançado no mercado por um preço que pode chegar a até 90 mil dólares por um curso de tratamento de 12 semanas, isso significa mil dólares por pílula. Estudos estimam que o custo de produção do tratamento completo varia entre 68 e 136 dólares!

Com esse preço, os pacientes com hepatite C não terão acesso ao sofosbuvir e, porque ele não é um iPhone, eles também não poderão simplesmente trocar a marca do remédio e recorrer a outro semelhante. Deverão continuar com os tratamentos antigos que, além de produzirem muitos efeitos adversos, não alcançam as mesmas taxas de cura que o sofosbuvir.

Para Rachel, a UAEM é única porque, baseando-se nos problemas da Saúde Global, ela desafia o status quo, fundamentando suas atividades nos estudantes universitários que se tornarão os líderes mundiais em saúde no futuro. A UAEM pratica a participação inclusiva e a humildade dos estudantes é marcada pela grande vontade de aprender e de participar na mudança dos paradigmas da Saúde que bloqueiam a melhora da qualidade de vida da população em situações desfavoráveis.

Para completar as discussões, Felipe Carvalho, da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de MSF-Brasil, recordou algumas vitórias que o movimento de Aids conseguiu para garantir o acesso aos tratamentos antirretrovirais para a doença, através de medidas legais, como as licenças compulsórias, que conseguiram reduzir sensivelmente o custo dos medicamentos e possibilitar que os portadores do HIV fossem tratados. Ele também comentou sobre a oportunidade única que o Brasil está vivenciando com a discussão sobre a reforma da Lei de Propriedade Intelectual ou Lei de Patentes, que possibilitará a revisão e inclusão de cláusulas que garantam o acesso às inovações e que impeçam a perpetuação de monopólios.

Encerrando as apresentações, Pedro Villardi, membro do Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), destacou o quanto a universidade é um lugar privilegiado, terreno fértil para os debates, e capaz de produzir transformações. Traçando um panorama histórico do acesso a medicamentos no Brasil, nos últimos anos, Pedro lembrou o acordo TRIPS, assinado pelo Brasil em 1996 e que obrigou o país a reconhecer as patentes de medicamentos, o que alterou completamente o cenário nacional, possibilitando os abusos econômicos cometidos pelos laboratórios em diversos casos nesses anos.

A crise de acesso a medicamentos, mais do que nunca, tem sido exposta diante de tantas contradições e abusos exibidos pelo mercado farmacêutico. Entendendo a Saúde como um Direito Humano fundamental, a UAEM chega à UFRJ disposta a fazer parte da transformação do cenário brasileiro e internacional a partir da universidade. Vamos investigar o que a comunidade acadêmica tem feito para participar na garantia do acesso à Saúde e levar aos estudantes esse debate imprescindível na luta em defesa dos direitos essenciais.  Saúde não é iPhone!

 

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  1. Antônio Augusto Bastos left a comment on 23/05/2014 at 01:05

    Foi excelente o evento na UFRJ! Muito instigante e informativo, e foi um prazer poder ouvir o Bryan, a Rachel, o Felipe e o Pedro.

    Temos que fazer mais desses!

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